Diogo Muñoz

SLOUCHING TOWARDS PERFECT (IN) SANITY
03 Out - 14 Nov

O conjunto de trabalhos que Diogo Muñoz apresenta em Slouching Towards Perfect (in)Sanity reflete, antes de mais, uma “discussão filosófica, audaciosa e profundamente pessoal” (1) acerca de um dos personagens mais marcantes da história literária: Dom Quixote. Em pinturas e desenhos, o artista coloca o espectador diante de um universo que transcende a imensidão dos mundos habitados e desbravados pelo cavaleiro da triste figura. Estamos diante de um Dom Quixote criado, ou melhor, recriado pelo artista. 

Se pretendermos reduzir Dom Quixote a um personagem, corremos o risco de o olhar, de fora, como a inevitável (e triste) figura, alguma coisa que apenas «está ali». No entanto, quando o olhamos de dentro para fora, permitimo-nos a um exercício psicológico, igualmente frágil. Diogo Muñoz assim o entendeu e foge da banalidade redutora destas análises através da legitimação da figura pela sua inserção no real. 

Muñoz pensa e descreve Dom Quixote  como o construtor de realidades inescrutáveis, confusas, ilógicas, não sequenciais. Um louco de quem o mundo ri e escarnece. Que, através de delirantes aventuras e viagens confabuladas, tem o sonho de ganhar o mundo e o entregar a alguém que ama. É a legitimação da loucura através da paixão, mas é também uma partilha validada com o potencial de loucura que habita cada leitor e a mobilização complacente da ironia que nos resta enquanto elementos de uma sociedade que valida normas, regras e dita comportamentos. 

A obra de Diogo Muñoz resgata e surpreende-nos com a visão dessa figura do nosso imaginário literário e coloca-a no lugar central desta exposição. É pela loucura que Quixote nos garante o eterno exemplo duma generosidade espiritual. Com juízo jamais seria herói. Só os apaixonados levam a cabo obras duradoiras e fecundas, dizia Unamuno. 

Mas o artista não se dedica apenas a uma esmiuçada e talentosa representação do fidalgo louco. Ele dá especial relevância às circunstâncias em que desenvolve cada cena. Identificamos aparições verdadeiramente surpreendentes, como o tema do circo ou uma carcaça de animal cruxificado. As composições detalhadas indiciam intencionalidade. Mais do que ornamentais, os elementos iconográficos municiam o discurso, dão-lhe coerência, ainda que pareçam deslocados no lugar e no tempo. 

A temporalidade do trabalho do artista parece ser, aliás, um dos elementos mais perturbadores nesta exposição.A contemporaneidade adquire especial acolhimento nos trabalhos de Diogo Muñoz. Constrói-se em torno de um passado histórico – nos símbolos cristãos, nas figuras de Gustave Doré, numa linguagem gráfica de um academismo provocatório – e de um futuro, de um encantamento, de uma disposição louca para a ação que é própria do ser humano. Figuras planas, opacas, incompletas, imagens difusas. Projetos humanos, misteriosos, inseguros, mas absolutamente necessários. O homem mais do que vê, prevê. 

Diogo Muñoz convoca os mundos da literatura e da arte para esta série de trabalhos. Já o vimos tantas vezes em ocasiões anteriores. Mas acentua aqui o caracter reflexivo e audaz da sua obra em torno da vida humana.

 

(1)  Este texto foi baseado em “O Dom Quixote de Diogo”, da autoria de Ricardo Roque Martins, que integra o catálogo de Slouching Towards Perfect (in) Sanity.