SUFOCO

Atelier Contencioso
08 Abr - 09 Jun

As obras das quatro artistas do Atelier Contencioso (existente desde 2015) são uma emanação do período de confinamento e agitam-se à volta da ideia de unheimlich que lhes foi lançada, tal como pensada por Sigmund Freud em 1919 (um texto, portanto, publicado perto do fim da pandemia de então): aquilo que é simultaneamente não familiar e familiar, gerador de auto-estranheza. O território desse desconforto existe dentro da casa – o limite (em todos os sentidos) onde temos tentado re-existir no período recente.

MARIA SASSETTI

As peças resultam de etapas específicas: uma colecção de frascos antigos, inicialmente recebida por via familiar; a intervenção da luz nesses objectos translúcidos e sua projecção formal e cromática num plano branco, variante ao longo do confinamento, observado numa parede do espaço de trabalho; a transposição dessa observação para o papel, obediente a um método meticuloso (consequência de uma condição óptica da artista), exercida com uma técnica de pontilhismo (por vezes utilizando de facto um desses frascos, conta-gotas, para aplicar tinta) – e em tudo isto há um domínio de movimentos ritmados.
O ritmo não está apenas no acto físico. A artista adaptou o conceito das “morning pages” diárias sugerido por Julia Cameron à produção dos objectos, por ventura em reacção ao estado de casa-prisão; de resto, os pontos aplicados, multiplicados, poderão declinar o gravar do passar dos dias na parede de uma cela. É um estado contraditório de liberdade condicional: ela acontece dentro do presídio. Nas peças onde vemos a forma dos frascos (que ora são memória familiar – conforto, portanto –, ora, pelo coleccionismo, um modo de controlar o, ou um, universo) antes manifesta-se a lucidez, isto é, uma forma mais límpida de agir contra.

ANA VELEZ
A acção repetitiva de 45 polaroids com a mesma perspectiva tem declaradamente a intenção de conduzir o espectador a encontrar nelas algo seu, e não o decidido pela artista (ou seja, por oposição a mostrar uma imagem única, autoritária, da mesma perspectiva). Isto não obstante o paradoxo inevitável: aquela perspectiva foi, claro, uma decisão da artista, para mais (outro paradoxo) deliberada em função do doméstico: trata-se da vista de uma janela de sua casa, executada durante o primeiro confinamento. De certa forma, é um modo de confinar o confinamento (tal como a maioria da população gerou acções correspondentes). Mas é impossível controlar tudo (não ignorando que, como dito, a intenção última é a democracia do olhar). Cada objecto fotográfico, mesmo se realizado com rigor horário quotidiano, recebeu luz diferente (fosse diurna ou nocturna); e uma polaroid acabará por se extinguir – mesmo se a opção pelo preto-e-branco seja mais competente para registar o Tempo (ao contrário de uma polaroid a cores, mundana). Perante isto, ou apesar disto, está um desenho composto por muitas camadas de tinta-da- china e grafite. A grafite é um mineral com a potencialidade de chegar a diamante, explica a ciência, e a artista (cujo método habitual é trabalhar por séries) pretende saber qual é o ponto intermédio para chegar ao “diamante certo”.

JOANA GOMES
As pinturas apropriam-se de fotogramas de Hijōsen no Onna (Dragnet Girl, 1933) de Yasujirō Ozu e Zerkalo (Sacrifício, 1975) de Andrei Tarkovsky, filmes de grande poética. No primeiro, um abraço contido; no segundo, uma casa arde. As linhas que interrompem estas imagens funcionam como instruções para reflectir, com cadência espaçada, sobre a tensão nelas existente, obrigando a prolongar ainda mais o tempo e leitura da moving picture original. E, se quisermos, a fazer coincidir ali o emocionalmente vivido no presente: pode ser um campo alegórico (o contra-campo do observador, dir-se-ia) para os efeitos mentais de um determinado autoritarismo consequente da profilaxia anti- pandémica; a intimidade está legislada e a habitação, lugar sagrado, implode.
O recurso ao filmado tem sido usual na artista, mas aqui leva-o a uma fusão maior com a matéria, em evolução de acções anteriores onde as imagens eram projectadas sobre a pintura. O resultado mantém- se uma rejeição forte do representativo, e as linhas perturbadoras, como a artista propõe, remetem para uma película gasta mas simultaneamente actual, por via do que flui daqueles corpos.

XANA SOUSA
Os vários objectos funcionam como uma espécie de mapas tridimensionais para a memória, sejam os papéis plissados a partir de esquemas de costura da revista Burda, os tecidos de velhos colchões de palha (enxergas) nos quais inscreveu desenhos, os travesseiros suspensos, todos provenientes de um universo familiar relativamente extinto. Sabemos que aconteceram, numa antecâmara processual mais ou menos invísivel, diários gráficos preparativos e um livro de artista onde refez os seus desenhos de infância, gerando hieróglifos pessoais em parte detectáveis no exposto.
Uma peça em particular, o papel plissado em forma de fenda, é assumido como ligação simbólica ao acto de encher os colchões empurrando a palha através de uma fresta. Este movimento e seus respectivos objectos são totens privados, mas altamente extensíveis ao observador, chamado a colocar em jogo a sua própria memória (os referenciais serão comuns) com a da artista. Tudo funciona precisamente em dupla – alguns dos conceitos enunciados são “só/acompanhado” e “real/sonho”. O observador pode ser sugado pelo referido rasgão ou cair no Sufoco, título da peça dos travesseiros (e nome mais tarde escolhido para esta exposição colectiva).

 

 João Macdonald