SARA MAIA I DA NOITE PARA A LUZ

DA NOITE PARA A LUZ
19 Mai - 29 Jul

A artista Sara Maia (Lisboa, 1974) apresenta a exposição "Da Noite Para A Luz" simultaneamente no Museu de São Roque e na Galeria Cisterna, ambas em Lisboa. Tomando como ponto de partida as pinturas da vida e lenda de São Roque, a artista desenvolve uma visão delirante e imaginativa sobre a estória do santo, que denota uma preocupação conceptual que transcende a superfície pictótica. Neste sentido, o significado de representação, como ato de reproduzir uma figura humana, um animal, um objecto ou acontecimento, torna-se uma intenção, sempre emotiva, do gesto do desenho e da pintura envolvente.

O conjunto das quatro pinturas, atribuídas a Jorge Leal e Cristóvão de Utreque (c. 1520), integravam a antiga eremida de São Roque, construída em 1505, e narram quatro episódios da vida do santo: natividade e adolescência; cura do cardeal; estadia em Piacenza e retiro na floresta; e prisão e morte beatífica. Cada painel apresenta dois momentos-chave da vida do santo e a narrativa desenrola-se do primeiro plano para o plano de fundo. Resumidamente: o santo nasce em Montpellie, numa família abastada, com uma cruz vermelha no peito; em adolescente distribui a riqueza pelos pobres; em Roma, a cura de um cardeal Inglês é considerada um milagre; no hospital de Piacenza assiste aos doentes de peste, mas é expulso após contrair a doença, refugiando-se fora da cidade, onde um cão o alimenta com pão; após a cura regressa à sua terra natal, onde é acusado de espionagem e condenado à prisão, morrendo esquecido anos depois; apenas é reconhecido pela família devido à cruz vermelha com que nasceu no peito.

Nos episódios concisos da vida de São Roque pode-se aferir uma panóplia de imagens e narrativas que naturalmente fascinaram a artista Sara Maia, que se encontram em consonância com trabalho que tem vindo a desenvoilver desde o final dos anos 90. A artista tem apresentado pinturas, de diversos formatos e escalas, em que as narrativas se encontram desconstruídas e, muitas vezes, desprovidas de um aparente sentido, recorrendo à representação de cenas humorísticas e grotescas com personagens animalescas e cómicas. As cores fortes e intensas, as estranhas proporções e o desenho solto e rarefeito, encaminham as suas obras para um universo emocional que atinge o espectador mais desatento. Ao colocar as quatro pinturas no percurso do Museu de São Roque, em diálogo com as pinturas do seu acervo, a artista confronta, não apenas algumas obras do património do museu, mas, sobretudo, os visitantes, apanhados de surpresa. É este espanto que tanto nos faz sentir a empatia para com as imagens que se sucedem à frente dos nossos olhos. 

As obras presentes na Galeria Cisterna dão continuidade a este universo histórico, mas libertas da comparação visual com as pinturas originais, tornam-se, talvez por isso, mais fulgurantes e despudoradas. Se, na primeira sala, as obras em papel remontam aos estudos que a artista realizou para se inteirar e incorporar a história de São Roque, as pinturas das salas seguintes disparam em diversas direções. A desfragmentação de cenas, a proliferação de personagens e objectos, as relações entre cores e escalas e a composição desfeita tornam-se elementos desconcertantes e promissores de um pensamento sobre pintura que está muito além da própria superfície pictórica. Ao desbravar as fronteiras da imaginação e da criatividade, a artista revela uma inquietude constante que questiona os limites da representação pictórica e, neste sentido, indaga sobre a pertinência da pintura. Consequentemente, o espectador é impelido a tomar uma posição e a falar sobre o que vê e o que sente. 

Hugo Dinis

Maio de 2022