HAVEL HAVALIM I DIOGO MUÑOZ

HAVEL HAVALIM
24 Fev - 06 Mai

HAVEL HAVALIM - Diogo Muñoz 

Por Mariana W. von Hartenthal

"Havel havalim": hebraico para "vaidades das vaidades", palavras que abrem a reflexão de Eclesiastes. "Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade", afirma o rei de Jerusalém, preocupado em revelçar a futilidade do esforço humano, esse castigo divino. O sábio não condena apenas a frivolidade na busca pela riqueza material e glória, mas alerta que mesmo o trabalho árduo e o acúmulo de conhecimento são frutos da vaidade, pois não deixarão marcas permanentes sobre a Terra. Todo engenho humano é passageiro - outro sentido de "havel" é "sopro", "vapor" ou "fumaça", e "havel" é origem de Abel, soprto de vida breve.

Mas se a vaidade é sopro fugaz, também é, como a respiração, essencial ao Homem. 

Nas obras aqui reunidas, Diogo Muñoz traça um comentário apurado sobre a vaidade, pecado do qual a humanidade não escapa. Figuras anónimas retratam-se em selfies na busca pela celebridade elusiva das mídias sociais, disputando o palco com desportistas consagrados, estrelas da música e génios da arte. 

No mundo imaginado pelo artista, Da Vinci, Velázquez, Hockney, Mike Tyson e os Rollings Stones convivem com Napoleão e outros heróis da história, monarcas e a Mulher Maravilha. Artistas circenses, tema recorrente na sua obra, pontuam a euforia melancólica deste picadeiro de vaidades. Animais surgem, às vezes como míticos seres fora do lugar, às vezes em situações cómicas e insólitas. UIma respeitável família de veados placidamente espera por algo, macacos copulam e um urso em equilíbrio em cima de uma trotinete é flagrado atrás das árvores. No centro de um grande painel, uma figura seminua esconde a face enquanto abre as asas, como um anjo caído sob um luminoso em forma de estrela. São aparições que, como espelhos retorcidos, nos querem dizer algumas verdades. 

Mas a fábula de Muñoz não é moralista. Pelo contrário, o artista assume a sua participação nesse espectáculo da vaidade. De forma pontual e precisa, ele combina elementos minuciosamente detalhados com o pop e o kitsch sem apelar ao virtuosismo exacerbado, porque sabe que a vaidade tem também o seu propósito e encanto. Não é à toa que vanitas, género de pintura que denuncia o vazio dos prazeres mundanos perante a certeza da morte, nos seduz com suntuosas superficies decoradas. 

Para Muñoz, a vaidade é a força pulsante, impulso tanto de leviandade quanto de grandeza humanas. Fortunas da arte e da sabedoria com frequência se originam em anseios frívolos, e intenções supostamente puras muitas vezes encobrem um torpe desejo de adulação. Nesse caranaval lírico e soturno, Muñoz sugere que a gravidade da tragédia humana e a leviana comédia não estão distantes, ambas são efêmeras. No final, como conclui Eclesiastes, é "tudo vaidade, e o vento passa". 

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