António Viana

Proximidades
08 Out - 19 Nov

 As Histórias Indiscretas de António Viana

Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia, Um pequeno absurdo às vezes chega para salvar. Alexandre O’Neil, O Princípio de Utopia, O Princípio da Realidade

Proximidades, se intitula a presente exposição de António Viana mostrando um conjunto de obras composto por dez óleos e impressões sobre tela (2014/16), vinte desenhos a óleo sobre papel e folha de ouro e mais oito em técnica mista de grandes dimensões (2012/16). Este conjunto de obras desenvolve-se em simultaneidade com outro projeto artístico Linha de Fratura terminado em 2019, que integra além de fotografias, objetos e instalações.

António Viana é pintor, além de ter uma vasta obra enquanto museógrafo, mas a sua relação com as obras que realiza implica uma total disponibilidade para o processo de construção e surgimento das mesmas, quer sejam pinturas, desenhos, fotografias ou modelos. A atividade criativa é encadeada e a passagem de um meio plástico a outro, permite a exploração diferenciada de elementos, como por exemplo os personagens (desenhos a óleo s/papel com folha de ouro), que habitam e se movimentam à vontade, dir-se-ia indiscretamente, construindo narrativas, que embora, fragmentadas se completam no seu conjunto do projeto, e mais além, na relação com outros, antes e depois, ou seja, dialogando com toda a obra.

Se um pressuposto conceptual existe na obra de António Viana, ele reside na forma de desenvolvimento do trabalho artístico, como projeto e processo que está sempre em simultaneidade ou continuidade com outro. E as personagens híbridas que percorrem as suas obras, são por isso fragmentos de um magma onírico onde a libido se manifesta feericamente, desvelando-se num universo utópico, ficionista, absurdo onde máquinas e ferramentas se transformam em seres que agem em cenários vertiginosos. A síncope, a quebra é introduzida através do corte acentuado dos planos, da alteração da escala e das mudanças do ponto de vista, assim como da unificação cromática. A ligação com o mundo da máquina, da produção de alta tecnologia, mesmo que bebida em revistas americanas da década de trinta do século passado e ultrapassada nos dias de hoje, mantém vivo o gozo estético pelas linhas da máquina voadora, comboio ou do automóvel de corrida, mas ainda pelo micro universo das fresadoras, dos tornos, e das mais diversas ferramentas, que povoam a memória de António Viana desde os tempos de menino ao frequentar a oficina da sua família na Figueira da Foz.

Do outro lado, temos sem dúvida a partilha de um discurso que não é alheio a Robert Raushenberg, e tantos outros, à pop, ao graffiti, à BD e ao neodadaísmo e que permite num contexto de pós modernidade entender a dificuldade da permanência de um sistema de representação unificado, propondo a possibilidade do fragmento como disrupção e dissonância, ou seja, como a única viabilidade para a lógica de uma representação que se assume contemporânea. E se António Viana utiliza o absurdo, tanto melhor, pois ainda podemos salvar o dia, relembrando Alexandre O’Neill.

Cristina Azevedo Tavares