António Gonçalves

Carnis Color
22 Ago - 26 Set

Ainda acredito na emoção, na possibilidade de fazer com que as pessoas sejam tocadas e que a arte lhes possa dar um sentido. Que resida na sensibilidade uma forma de acesso, de proximidade e de intimidade perante o silêncio e a emoção. Existirá ainda encantamento e mistério, onde as memórias deambulam em resposta a gestos simples e autênticos.

O resplandecer da cor dá a ver a carne pela sua essência, fazendo desta uma revelação de concepção primordial. A existência da luz é imprescindível para dar a ver, assim como se torna essencial para permitir a nossa percepção da cor: quais as cores para definir carne e para nos acercarmos à mais clarividente visão. Será por ventura a práxis da pintura, uma incursão no mistério da cor da carne, no silêncio que a habita e que nos alude à contemplação.

A carne desejo, a carne sentimento, a carne em sentido amplo, a carne sem corpo, a carne apenas corpo, a carnis color. Assentar a possibilidade de a carne ser cor, de a podermos ver pela cor, de a termos presente na coloração mais precisa. Mas e qual a cor da carne? Qual o espectro cromático que a poderá assistir? Eis a discussão que se poderá avançar, a reflexão que se poderá explanar, quando a cor e a carne se unem num intuito de desígnio de revelação da origem, da têmpora que as brota e as dá ao consentimento, mas não as dá translúcidas. Será pela pintura que nasua materialização se auxiliará a emoção, se provocará a reação para o sentido da religiosidade, do arcano, da sensibilidade, que podem levar à contemplação, à observação mais meditada, ou mesmo à comoção.

Estamos perante a luz strobe que nos dificulta a percepção da cor, que nos estilhaça a visão da carne, que nos agita a pintura, animando-a em frames agitados e lançando-a na parafernália do dia a dia das imagens. A revisitação será sempre uma forma de retomar, de respeitar, de reanimar e reinventar o primeiro dia, o princípio mais simples, fazendo dele a consentida verdade da nossa existência enquanto seres de medos, de sensibilidades, de emoções e de morte. Carnis color é a revisitação, a vontade de ir ao encontro da primeira luz, da primeira forma, da primeira cor, que nunca se deixaram extinguir e que animam a nossa presença e razão.