ACHADOUROS

Bettina Vaz Guimarães
13 Out - 29 Dez

Achadouros 

O trabalho de Bettina Vaz Guimarães convoca-nos para uma experiência da cor e, de um modo aparente, para uma experiência espacial da abstração geométrica. Os seus desenhos, trabalhados de modo compulsivo em conjuntos ou séries, derivam na sua maioria uns e outros, como se o desenho de uma forma se transformasse numa outra que lhe é semelhante, assumindo assim uma fórmula de repetição e associação formal.

Contudo, não é bem assim, porque a sucessão de registos e de composições traduz uma firme vontade de exprimentar sucessivamente um vocabulário cromático e formal que se desenvolve em torno da ideia de espaço, de dentro e de fora, de volume e ausência deste, associaando-lhe a luminosidade de uma paleta muito contida que, em certas obras, se concentra na estrutura e nos planos dos sólidos representados e das suas formas, por vezes improváveis. Esta prática desenvolve-se nos desenhos sobre papel de textura e densidade diversa, bem como na pintura sobre tela e sobre os cubos escultóricos, os "casulos" que flutuam sobre a parede da sala de exposição, ou na casa e no espaço íntimo de qualquer um de nós. A este respeito, Luís Telles diz-nos de forma muito clara o seguinte: "A cor domina, a complexidade aumenta a tal ponto que não resta alternativa a não ser puxar a pintura para a parede - agora colorida - e colocá-la em objectos físicos, como se estivéssemos olhando para uma metalinguagem pictórica: vendo cubos, pintados em cubos, dentro e fora do espaço expositivo que também tem este formato. Esse elemento traz um procedimento novo. Quase o caminho inverso de Braque e Picasso. parece que bettina sempre pintou os seus objectos como se tivesse olhos em todos os lados..."

Com esta exposição, Bettina Vaz Guimarães propõe-nos uma viagem poética através de diferentes núcleos do seu trabalho, cruzando o desenho, a pintura e a escultura sem perder o encanto e o mistério que a palavra, presente em muitos dos títulos das suas obras e inscrita em algumas delas, pode convocar.

A cor é uma matéria e simultaneamente uma ferramenta para desenvolver um preocesso de construção e, num mesmo momento, de desconstrução de formas abstratas e referências arquitetónicas, modulares como uma casa ou como uma ideia elementar da casa, como um contentor sensível. Essa possibilidade de ser uma casa transforma-se no lugar onde a artista vai ao encontro de elementos subtis e imaginários que só existem no seu processo de criação, até serem achados ou encontrados por todos o que experienciam as suas obras. 

São os achadouros, uma palavra que se pronuncia com gosto, de sabor estético e poético. Esta relação dialética é fortemente acentuada na escultura: numa dessas peças, um cubo coberto de desenhos que parecem anunciar "todas as coisas da noite". E vemos todos os desenhos possíveis, entrelaçados como planos que se desdobram nos densos painéis de uma parede. Como se fossem as cores da memória, por onde pode passar a revisitação dos poemas de Manoel de Barros, poeta que escreveu Memórias inventadas: a infância como um "caçador de achadouros da infância", que Bettina Vaz Guimarães transforma numa prática do desenho quase diarística, numa partilha da sua vida e dos seus gestos como artista e como mulher. 

João Silvério