João Távora

Lisboa | Portugal

Um desenho é juntamente uma coisa mundana e uma coisa insólita. É mundano porque encontramos desenhos minúsculos em guardanapos de papel e encontramos desenhos gigantescos na parede de uma sala, do género feito silenciosamente por uma criança dedicada quando estávamos distraídos. Um desenho pode retratar uma cena mitológica, uma trivialidade burlesca, ou nada em particular.

Porquê insólito? Um desenho pode certamente ter um antecedente narrativo, mas também contém nele um tempo diferente dessa narração, o seu próprio tempo. Um tempo irrazoavelmente vasto, mesmo mais vasto do que o tempo do seu próprio fazer: uma espécie de presente perpétuo. Num desenho vivem os escombros do assalto contínuo ao papel, as formas inscritas não apenas sobre ele, mas por ele adentro. No fim, por mais massacrado que seja esse desenho, pareça ou não acabado, a última marca é sempre a do abandono.

São estas atribulações, ancoradas precariamente na finura do papel, que nos fitam misteriosamente de volta.

 

serpente I, 2020

Pastel seco sobre papel 70 x 50 cm

Sem título, 2018

carvão colorido, grafite e fita sobre papel 100 x 140 cm

Sem título, 2019

Pastel seco e carvão sobre papel 62 x 40 cm

Sem título, 2020

Pastel seco e carvão sobre papel 70 x 50 cm

Serpente II, 2020

Pastel seco sobre papel 70 x 50 cm